Dizendo não

Publicado em 06.03.13 | por
Hilda Lucas, escritora | Foto: Divulgação

Hilda Lucas, escritora | Foto: Divulgação

A escritora HILDA LUCAS fala sobre um assunto às vezes delicado e até difícil para a maioria das pessoas: a necessidade e a importância de dizer “não”. Conscientes dos benefícios que tal postura acarreta, as mulheres inovadoras sabem que um “não” pode significar o controle e a curadoria da sua própria vida, como identifica o movimento Não é sim

 

Vivemos entre sins e nãos, o tempo todo, porque estar viva é fazer escolhas. Se pudéssemos computar quantas escolhas fazemos ao longo de um único dia, ficaríamos estarrecidas. São dezenas.

Ou isso, ou aquilo, já dizia a poeta. Sim ou não?

O sim é da ordem do impulso, da continuidade, da prontidão para tocar a vida; parece estar no sangue, no sonho, no fluxo natural. É tão mais fácil que, normalmente ao dizê-lo, sorrimos.

Já o não… Esse é bem mais complexo. Aprender a dizer não é talvez a mais difícil das conquistas. O não é penoso, é incômodo, é abrupto, é estraga-prazer. O não rompe processos, desfaz projetos, interrompe planos. O não, muitas vezes, deixa quem ouve sem graça, e quem fala, sem jeito. É como se o não viesse sempre acompanhado de um pedido de desculpas ou um embaraço, tantos são os ensaios, as insônias, as considerações. Mas são necessários. Sem os nãos, os sins seriam vazios – e nós também.

O não é guinada, é tomada de posse, é basta. Fruto do desassossego e do inconformismo é sempre uma luta. Mas para ser inteira é preciso saber dizer não. É um exercício de autonomia, amor próprio, liberdade porque toda vez que você diz não a alguém ou a uma determinada situação você está dizendo sim a você mesma. É emblemático: no não, o sim à sua integridade e aos seus limites; no não, a fidelidade e o respeito a si mesma.
“Não, hoje, não”. Essa frase tem que ser dita com naturalidade, seja no sexo, no lazer, no trabalho, na família.

No universo feminino o não é quase sempre um estresse. O sim, a concordância, a aceitação, parecem habitar num lugar mais primordial, de papéis ancestrais da nossa condição. Por isso dizer não chega a ser desconfortável e até violento.

A preocupação em agradar, a vontade de sempre acomodar e manter uma imagem de felicidade e harmonia muitas vezes atrapalham um simples e necessário não. Aí, você prolonga situações desgastantes, aprisiona-se em escolhas forçadas, perpetua ciclos que já deviam ter se encerrado, faz as coisas com má vontade ou irritada como se não houvesse escolha. Sempre há, e o não é uma delas. Não é legítima defesa, é demarcação de espaço, é reserva moral. Dizer não não é ser do contra, é ser a favor de si mesma. Na verdade, muito mais que negação, o não é uma tremenda afirmação.

Diga não toda vez que você se sentir encurralada, violentada, engessada, vivendo um script que não seja seu. Diga não aos excessos, seus e dos outros; às dores crônicas, aquelas que grudam na sua alma como parasitas; às responsabilidades que não te pertencem, às cobranças indevidas, às falsas fidelidades. Diga não às culpas impingidas que não têm nada a ver com os seus erros e dúvidas; às contas que não são suas, aprenda a devolver faturas, gravames e desaforos. Diga não aos sapos que te querem fazer descer goela abaixo e às bandeiras que você não quer empunhar. Diga não às ideias que não te traduzem e àquelas que envelheceram; à autopiedade, à grosseria, ao abuso de qualquer tipo de autoridade e à manipulação afetiva. Diga não às práticas nocivas à sua saúde, em nome da beleza e da juventude, à ditadura do julgamento do outro; às horas extras abusivas e à pressão indiscriminada como prática. Diga não ao medo de parar, ao medo de diminuir o ritmo, trocar de emprego, sair de um relacionamento, mudar de hábitos. O não é ruptura, alforria e resgate.

Use o não, ouse o não. Palavra corajosa feita de autoestima e instinto de preservação, que esculpe a vontade e confere peso moral às escolhas.

Lembre-se que Eva foi a primeira a dizer não! O primeiro não mítico-bíblico foi proferido por uma mulher. Um não imenso, transgressor, inaugural. Fique com isso, essa herança de Eva, que disse não ao paraíso e fez história.

Os paradoxos Y

Publicado em 02.10.12 | por
Mirian Goldenberg

A antropóloga Mirian Goldenberg | Foto: Divulgação/ BONS FLUIDOS

Fomos buscar a opinião da antropóloga MIRIAN GOLDENBERG sobre as meninas da geração Y. Confira aqui os melhores momentos do bate-papo com a estudiosa, que lembrou de Laerte e Leila Diniz, destacou a liberdade das mulheres de 60 anos, a confiança das suecas e mais. Por Inês Garçoni

O que a mulher da geração Y está vivendo atualmente é um poder objetivo mas uma miséria subjetiva. O que há hoje é uma oposição entre o poder objetivo concreto e à sensação de que elas estão presas a escolhas legitimadas. As meninas com idade entre 20 e 30 e poucos anos têm mais opções e liberdade que as mulheres de outras gerações, mas uma extrema preocupação com o olhar do outro. E, por isso, não estão usufruindo da suposta satisfação que essa liberdade poderia proporcionar. Nesse ponto, as mulheres de 60, 70 aproveitam mais a liberdade que conquistaram. Finalmente conseguiram estar tranquilas com sua auto-imagem. Elas acham que podem ser elas mesmas, sem o foco no olhar do outro. Como se tivessem tido um clique: chega! Agora eu vou olhar para mim mesma, que é o que importa.

Y: carreira e família

Nas entrevistas que faço com garotas desta geração, noto uma expectativa maior em casar e ter filhos do que em investir na carreira. O discurso é o da independência e da carreira, mas o comportamento é o de casa. Elas abrem mão da carreira para ficar em casa. Os rapazes da mesma geração também fariam essa escolha, mas eles não têm uma desculpa para serem sustentados.

A necessidade da ruptura

Na geração que está hoje com 50 e poucos as mulheres tinham a obrigação de perseguir a liberdade. Ela tinha que casar ou brigar para ser independente. Ou então casar primeiro para chegar a uma independência. Hoje, a mulher Y não tem que provar ou conquistar nada e fica muito mais difícil construir sua própria história sem partir de uma ruptura. É um paradoxo. Essa é uma geração que vai ter que construir suas vidas de forma particular. Do zero.

Questão dos gêneros: Laerte e Leila Diniz

A questão dos gêneros, de forma geral, é muito atrasada no Brasil. E será um desafio para essa nova geração. Um exemplo: na Súecia a licença maternidade pode ser compartilhada entre mulheres e homens; aqui, o homem é descartado desse processo pelo estado e pela própria mulher, que o considera incapaz de cuidar e criar seu filho. E, a partir daí, fica muito difícil estabelecer as questões de gênero de uma nova forma. O que houve de mais revolucionário nos últimos anos nesse aspecto foi o Laerte. Ele é a nossa nova Leila Diniz, é quem está rompendo com as barreiras de gênero e dizendo para a sociedade que não dá para classificar o inclassificável, está propondo uma abertura para todas as possibilidades.

Um futuro mais feminino no mercado de trabalho

Publicado em 24.07.12 | por

 

Dora Faggin | Foto: Divulgação

Dora Faggin | Foto: Divulgação

Conversamos com DORA FAGGIN, sócia-diretora da Vox Pesquisas, socióloga, formada em Desenvolvimento Social. Em pauta, o futuro da mulher no mercado de trabalho e o presente da mulher nas redes sociais. Confira os melhores momentos e reflita:

A sociedade brasileira sempre oprimiu as mulheres. Claro, hoje em dia os nossos direitos estão mais claros, há leis, etc. E se alguém fala de opressão contra as mulheres dizem que é loucura, que as mulheres já conquistaram seu lugar nas universidades e empresas. Mas esta é uma mulher masculinizada.

Há defasagem salarial entre homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo (elas recebem menos, é claro). A sociedade é machista e até a mulher coloca em prática uma visão masculina – de mundo, de emprego etc. Contudo, as mulheres estão cansadas de ter que se comportar como se usassem uma máscara masculina para encarar o mundo.

Estamos em um momento de transição: as mulheres aos poucos vão conseguir se colocar como mulheres, e não como ‘mulheres masculinas’. Hoje, as mulheres conseguem se reconhecer como grupo, conseguem falar de mulheres, com mulheres e sobre mulheres – isso acontece com toda minoria (apesar de que a mulher não é uma minoria em números, mas é tratada como, pois é suprimida e oprimida). E essa questão do grupo pode trazer a reconexão com a parte feminina da alma e permitir, nos próximos anos, uma sociedade mais feminina e livre para a mulher. E isso não vai acontecer  porque as mulheres vão ganhar ainda mais poder, mas porque ela vai conseguir executar suas ações de uma forma feminina. Ela vai ver que não precisar ser dura o tempo inteiro.

Sobre mulher, liberdade, família  e redes sociais

As mulheres encontram a liberdade nas redes sociais. Hoje, dá para viver diversas personas virtuais sem assumir efetivamente nenhuma delas. Isso permite que a mulher explore partes de sua  personalidade que ela não podia mostrar antes.

Nas classes sócio-intelectuais mais baixas, as redes dão voz ao grupo. Isso porque as mulheres desta classes ainda têm algumas dificuldades no dia a dia que são difíceis de serem enxergadas pela mulheres de outras classes. Por exemplo, elas optam ficar casadas com um cara que não gostam só para ter uma figura masculina em casa. Neste contexto, as redes sociais permitem que essas mulheres se ajudem, se articulem, mostrem soluções que uma encontra e compartilha com a outra.

Mas há o lado negativo da rede, que interfere diretamente na vida familiar da mulher de qualquer classe intelecto-social. Se o filho está com dúvidas sobre sua vida sexual, ele não pergunta pra mãe, vai pra internet. Vinte anos atrás, as pessoas sentavam, comiam junto e conversavam. Hoje, as relações são individuais. E a mãe está sofrendo com esta realidade. Muitos aspectos da educação passam cada vez menos pela família.

Para saber mais sobre o comportamento feminino no universo online, assista ao vídeo VITRINE.COM. Para conhecer a tendência SER MULHER, clique aqui.

Palavra narrada

Publicado em 18.04.12 | por
Letícia Abraham, da Mind Set | Foto: Divulgação

Letícia Abraham, da Mind Set | Foto: Divulgação

LETÍCIA ABRAHAM, da Mind Set, fala sobre a necessidade de resgatar a arte do bom papo, embalado por boas histórias. Coisa rara em tempos de poucos caracteres e de muita pressa e imediatismo

Quando foi a última vez que você contou uma boa história? Na mesa de um bar, restaurante, em casa, no trabalho? Não importa o lugar, quando foi a última vez que você sentiu conseguir manter a atenção fixa e curiosa dos seus espectadores enquanto você narrava algum acontecimento, como se cada um deles estivesse louco para saber a próxima cena do filminho que ia se construindo em suas mentes, a cada novo desenrolar da história?

Não consegue se lembrar? Não se preocupe, totalmente normal. Apesar de todas as facilidades que temos hoje em dia para (re)encontrar ‘amigos’, conectar-se com conhecidos e desconhecidos, ter acesso a técnicas profissionais de compartilhamento de fotos e vídeos, entre tantas outras possibilidades, infelizmente o nosso contexto social de hoje em quase nada nos ajuda a preservar o talento narrador que existe em cada um de nós.

Temos pressa, fazemos leitura dinâmica, buscamos produtividade em tudo, queremos acumular informações (de preferências, em até 140 caracteres) e nos esquecemos do nosso hábito ancestral de nos sentarmos em volta uns dos outros para ouvir, contar e compartilhar as nossas experiências. Isso é rico demais.

Walter Benjamin, filósofo alemão e um dos maiores pensadores sobre o  impacto do declínio das narrativas, sempre defendeu que o ‘narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos ouvintes’. Benjamin complementa ainda afirmando que ‘a narração não é produto exclusivo da voz. Na verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos, que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito’.

Numa era em que se fala tanto de ‘story telling’, do poder de uma grande história, de uma ‘big idea’, dar uma olhadinha para o passado para nos ajudar a resgatar essa nossa essência nata de contadores de histórias parece fundamental!

O que as mulheres querem?

Publicado em 09.04.12 | por
Mirian Goldenberg, antropóloga | Foto: Divulgação/ VEJA

Mirian Goldenberg, antropóloga | Foto: Divulgação/ VEJA

O movimento Pensou Mulher Pensou Abril destaca cinco ótimas informações sobre o universo e comportamento feminino apuradas pelas pesquisas da antropóloga MIRIAN GOLDENBERG. Confira nosso TOP 5, os desejos e verdades das mulheres contemporâneas.

Leveza: “Toda mulher brasileira quer ser jovem, magra e leve. Essa leveza tem a ver com comportamento, elas querem ser mais agradáveis, doces, sedutoras, sorridentes”.

Liberdade: “Elas querem ser livres, ter liberdade de expressão, menos pressões sociais, querem ser livres para muitas coisas, inclusive para transar mais; e paradoxalmente querem alguém que lhes dê a segurança de ter suas contas pagas, de ser protegida. Mas é impossível equilibrar esses dois sonhos, então elas ficam frustradas. Há uma pesquisa que mostra que a liberdade é o trunfo masculino mais invejado pelas mulheres; e que os homens não invejam as mulheres em nada”.

Menos X Mais:“Na pesquisa que fiz para o meu próximo livro perguntei às mulheres o que elas procuram em um homem. As respostas foram: um homem mais sensível, mais paciente, mais alto, mais inteligente, mais bonito. Quando perguntei aos homens o que eles procuravam em uma mulher, eles disseram: uma mulher menos exigente, menos estressada, menos …tudo”.

Risadas X Felicidade: “Pesquisas mostram que 84% dos homens afirmam dar muitas risadas, enquanto 60 % das mulheres querem rir mais. As mulheres são mais felizes e têm expectativa maior de felicidade, mas dão menos risadas. Elas sentem receio de rir no trabalho por medo de parecerem bobas. O curioso é que elas querem ter relação com homens que as façam rir. E eles querem rir mais com as mulheres, mas não conseguem, porque elas censuram suas brincadeiras dizendo que são bobas e infantis. DR para homem é Dar Risada. Para as mulheres é Discutir a Relação. As mulheres são mais sérias” .

Felicidade transetária:(Segundo pesquisa da FGV) a mulher de 65 anos é a mais feliz entre as brasileiras. Acho que isso acontece porque elas não querem mais agradar ninguém e fazem o que bem entendem. Fiz uma pesquisa com elas e são as mulheres mais interessantes que já conheci”

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