Dizendo não
A escritora HILDA LUCAS fala sobre um assunto às vezes delicado e até difícil para a maioria das pessoas: a necessidade e a importância de dizer “não”. Conscientes dos benefícios que tal postura acarreta, as mulheres inovadoras sabem que um “não” pode significar o controle e a curadoria da sua própria vida, como identifica o movimento Não é sim.
Vivemos entre sins e nãos, o tempo todo, porque estar viva é fazer escolhas. Se pudéssemos computar quantas escolhas fazemos ao longo de um único dia, ficaríamos estarrecidas. São dezenas.
Ou isso, ou aquilo, já dizia a poeta. Sim ou não?
O sim é da ordem do impulso, da continuidade, da prontidão para tocar a vida; parece estar no sangue, no sonho, no fluxo natural. É tão mais fácil que, normalmente ao dizê-lo, sorrimos.
Já o não… Esse é bem mais complexo. Aprender a dizer não é talvez a mais difícil das conquistas. O não é penoso, é incômodo, é abrupto, é estraga-prazer. O não rompe processos, desfaz projetos, interrompe planos. O não, muitas vezes, deixa quem ouve sem graça, e quem fala, sem jeito. É como se o não viesse sempre acompanhado de um pedido de desculpas ou um embaraço, tantos são os ensaios, as insônias, as considerações. Mas são necessários. Sem os nãos, os sins seriam vazios – e nós também.
O não é guinada, é tomada de posse, é basta. Fruto do desassossego e do inconformismo é sempre uma luta. Mas para ser inteira é preciso saber dizer não. É um exercício de autonomia, amor próprio, liberdade porque toda vez que você diz não a alguém ou a uma determinada situação você está dizendo sim a você mesma. É emblemático: no não, o sim à sua integridade e aos seus limites; no não, a fidelidade e o respeito a si mesma.
“Não, hoje, não”. Essa frase tem que ser dita com naturalidade, seja no sexo, no lazer, no trabalho, na família.
No universo feminino o não é quase sempre um estresse. O sim, a concordância, a aceitação, parecem habitar num lugar mais primordial, de papéis ancestrais da nossa condição. Por isso dizer não chega a ser desconfortável e até violento.
A preocupação em agradar, a vontade de sempre acomodar e manter uma imagem de felicidade e harmonia muitas vezes atrapalham um simples e necessário não. Aí, você prolonga situações desgastantes, aprisiona-se em escolhas forçadas, perpetua ciclos que já deviam ter se encerrado, faz as coisas com má vontade ou irritada como se não houvesse escolha. Sempre há, e o não é uma delas. Não é legítima defesa, é demarcação de espaço, é reserva moral. Dizer não não é ser do contra, é ser a favor de si mesma. Na verdade, muito mais que negação, o não é uma tremenda afirmação.
Diga não toda vez que você se sentir encurralada, violentada, engessada, vivendo um script que não seja seu. Diga não aos excessos, seus e dos outros; às dores crônicas, aquelas que grudam na sua alma como parasitas; às responsabilidades que não te pertencem, às cobranças indevidas, às falsas fidelidades. Diga não às culpas impingidas que não têm nada a ver com os seus erros e dúvidas; às contas que não são suas, aprenda a devolver faturas, gravames e desaforos. Diga não aos sapos que te querem fazer descer goela abaixo e às bandeiras que você não quer empunhar. Diga não às ideias que não te traduzem e àquelas que envelheceram; à autopiedade, à grosseria, ao abuso de qualquer tipo de autoridade e à manipulação afetiva. Diga não às práticas nocivas à sua saúde, em nome da beleza e da juventude, à ditadura do julgamento do outro; às horas extras abusivas e à pressão indiscriminada como prática. Diga não ao medo de parar, ao medo de diminuir o ritmo, trocar de emprego, sair de um relacionamento, mudar de hábitos. O não é ruptura, alforria e resgate.
Use o não, ouse o não. Palavra corajosa feita de autoestima e instinto de preservação, que esculpe a vontade e confere peso moral às escolhas.
Lembre-se que Eva foi a primeira a dizer não! O primeiro não mítico-bíblico foi proferido por uma mulher. Um não imenso, transgressor, inaugural. Fique com isso, essa herança de Eva, que disse não ao paraíso e fez história.





enviar comentário



