Será que elas conseguem?

Publicado em 26.02.13 | por

Foto: Getty Images

Estamos tendo filhos cada vez mais tarde. A idade média da primeira gravidez no Brasil é de 26,8 anos. Entre as mulheres com maior instrução essa média beira os 30, e as supergraduadas só vão se tornar mães com 34, 35 anos. A primeira análise desse cenário, fruto da opção de adiar a maternidade em favor do estudo e da carreira, é positiva.

Controlamos o relógio biológico e planejamos quando vamos casar e procriar. Se perguntarmos a uma jovem recém-chegada ao mercado quando ela pretende engravidar, a resposta mais comum será: “Quando estiver estabelecida na carreira”. Parece lógico. A questão que aparentemente escapa dessa equação é que, quanto mais estabelecida na carreira estiver, maior será seu compromisso com o trabalho, seja ele em uma corporação ou um empreendimento próprio. Quanto mais bem-sucedida, maior sua responsabilidade – e maior o conflito pela divisão do seu tempo.

Se junto com o sucesso houver a devida recompensa financeira, a mulher que planejou engravidar mais tarde poderá pagar uma babá (veja bem: isso por enquanto, visto que essa profissional se torna cada vez mais rara e cara). Mesmo assim, e apesar do eventual apoio esforçado de um marido, seu tempo continuará curto para as demandas da dupla função. Principalmente as afetivas.

Na comédia Não Sei Como Ela Consegue, dirigida por Douglas McGrath (2011), a executiva do mercado financeiro interpretada por Sarah Jessica Parker é uma profissional brilhante e mãe apaixonada de duas crianças pequenas. Tem um emprego que adora, um marido maravilhoso e uma rotina de louca. Passa as noites em claro fazendo listas mentais sobre todas as tarefas domésticas e corporativas que terá que cumprir no dia seguinte. Tem uma crise de choro quando perde o primeiro corte de cabelo do filho caçula para a baby sitter e a confiança da filha mais velha por faltar a sucessivos eventos escolares.

Soa familiar? Já testemunhei uma colega inconsolável por ter que optar entre o almoço com um cliente e a quadrilha da festinha junina do filho. E flagrei uma vice-presidente chorando no banheiro depois de receber um telefonema cruel da orientadora da escola para informar que ela era a única ausente no Dia das Mães da turminha.

Uma alta executiva de uma empresa sensível à causa materna, que mantém uma creche interna para as crianças das funcionárias, conta que muitas vezes, com a agenda sobrecarregada, não consegue um único intervalo para ir ver a filha, que passa os dias ali, e sente o coração apertado ao saber que outros pequenos receberam a visita das mães. Veredito: culpadas.

A vice-presidente do Facebook, Sheryl Sandberg, confessou que só muito recentemente assumiu que costuma parar de trabalhar às 17h30 em ponto, seja lá o que estiver fazendo, para ir buscar os filhos na escola. Orgulha-se de, finalmente, ter conseguido se dar essa permissão e, em particular, de ter constatado que isso não a tornou menos produtiva e competente.

Soa inspirador? A mulher contemporânea já decidiu quando ser mãe. Falta aceitar os limites que a maternidade impõe e, com o devido suporte do mercado, sofrer menos no desempenho desse papel. Ou continuará a passar noites insones ao lado da sua culpa.

As neodarwinistas

Publicado em 30.01.13 | por
Foto: reprodução Advertising from the Mad Men Era (ed. Taschen)

Foto: reprodução Advertising from the Mad Men Era (ed. Taschen)

Nem adianta ter saudade do tempo em que o trabalho era das 9 às 5 e, uma vez fora da empresa, as preocupações e pendências ficavam em estado de suspensão, magicamente congeladas até a manhã seguinte. Hoje, você pode definir qual será o seu expediente físico, mas não controla o virtual. Pode se esforçar para “não levar trabalho pra casa”, como se dizia nos velhos tempos, mas será levada por ele onde quer que esteja, em qualquer circunstância.

No mundo da hiperconexão, o seu emprego, atividade ou negócio ficam 24 horas com você, 24 horas em você. A autodisciplina pode ajudá-la a desplugar nos momentos em que sua sanidade exigir, mas, por estar a um clique do seu dedo (polegar, se tiver menos de 30, ou indicador, se for mais crescidinha), sua profissão e você se fundiram inexoravelmente.

E é daí que vem uma boa notícia: nessa grande mudança de era em que vivemos, mulheres contemporâneas decretaram que o trabalho será seu melhor amigo. Para selar essa compatibilidade entre trajetória profissional e pessoal, elas decidiram que, muito mais do que dinheiro ou aparente sucesso, o trabalho deve trazer alegria e ter um propósito. Se eu e meu ganha-pão vamos dormir e acordar juntos, que nossos sonhos sejam leves e comuns.

A felicidade que as mulheres inovadoras entrevistadas pelo movimento Pensou Mulher Pensou Abril (a área de pesquisa de comportamento feminino da Abril Mídia) estão buscando no trabalho chama-se sentido. Não para justificar o sacrifício da empreitada, mas exatamente para que não haja sacrifício – e sim satisfação antes, durante e depois.

O que está sendo valorizado e questionado não são apenas as finalidades nobres mas a ética e a consistência da jornada. O que eu quero com isso? Posso fazer melhor? Vai me fazer bem? E aos outros? Ao acreditarem que o trabalho é ao mesmo tempo prazeroso e poderoso – além de essencialmente transformador de si próprias, das pessoas que a cercam e da sociedade em geral -, as neodarwinistas (como a tendência foi batizada pelo movimento Pensou Mulher Pensou Abril) estão em processo de seleção natural em sua evolução pessoal: descartam o que não serve para seu objetivo de vida e investem em seus melhores recursos e talentos.

Olhe em volta e veja quantas delas estão mudando de carreira, de emprego, de ideia. Muitas se tornaram autônomas, tanto na definição da forma de trabalho eleita como no sentido literal da palavra. E deixaram a segurança das carreiras lineares para optar por projetos mais criativos e gratificantes.

A mulher brasileira está entre as mais empreendedoras do mundo. Têm, entre 18 e 24 anos, as maiores taxas de participação no universo dos novos negócios. É uma característica das novas gerações que está inspirando as anteriores. Exige disposição, determinação e coragem. Mas, no final do dia, gera seres humanos melhores para perpetuar a nossa espécie.

O abismo entre as gerações

Publicado em 07.01.13 | por
Jessa Johansson, 20 e poucos anos, personagem de Girls | Foto: Reprodução HBO

Jessa Johansson, 20 e poucos anos, personagem de Girls | Foto: Reprodução HBO

“Sabe qual a coisa mais estranha de ter um emprego? É que você precisa estar lá todos os dias, mesmo quando não está a fim.” (Jessa Johansson, 20 e poucos anos, personagem do seriado Girls, da HBO.)

“Minha licença-maternidade será de poucas semanas e eu trabalharei durante todo esse tempo.” (Marissa Mayer, 37 anos, nova CEO do Yahoo!, que assumiu o cargo grávida de seis meses.)

O que separa as duas declarações acima, além do fato óbvio de pertencerem a universos distintos – a primeira à ficção e a segunda ao mundo real -, é o abismo de uma geração e sua forma antagônica de encarar o que chamamos de trabalho.

As duas mulheres, tanto a verdadeira quanto a fictícia, são exemplares. E, embora pareça estranho comparar um personagem irreverente de série de TV com uma das executivas mais bem-sucedidas do Vale do Silício, as duas são notícia e polêmica fresquinhas na mídia que nos ajudam a refletir sobre presente e futuro das carreiras das mulheres.

Para começar, é bom deixar claro que pouquíssimas executivas chegam aonde Marissa chegou, mas é inegável que a vontade, a ambição e a energia da moça, avis rara no mundo masculino da tecnologia, são modelos inspiracionais para as meninas superpoderosas X (que têm hoje 30 e muitos e 40 e poucos anos), comprometidas até o último fio de cabelo com a atividade profissional.

Jovens brilhantes, como Marissa ou como Sheryl Sandberg, a segunda alta executiva do Facebook, acreditaram (e ainda acreditam!) que as mulheres podem tudo e colocaram na mesma bolsa (de grife) o prazer do trabalho e da vida pessoal, não distinguindo direito onde começa um e termina o outro. Elas não encaram como sacrifício o fato de passar mais tempo no escritório do que em casa (mesmo que, a exemplo de Marissa, a casa seja uma espetacular cobertura no hotel Four Seasons, em São Francisco, Califórnia). O divertido é trabalhar. A adrenalina e o encantamento vêm da atividade frenética diária, do coletivo corporativo, do poder e da conquista.

Guardado o devido respeito ao sucesso – que só poucas, como Marissa ou Sheryl, obtêm -, o combustível que move as mulheres X é feito da mesma matéria. Aí não surpreende que não haja da parte da nova presidente grávida do Yahoo! a preocupação em diminuir o ritmo ao se tornar mãe, posto que o filho será inserido nesse estilo de vida, não visto como obstáculo ou fator de mudança de hábito. Sua declaração de intenção foi criticada por defensores da prioridade da maternidade e posta em dúvida por pares masculinos, meio ciumentos da sua posição. Sem juízo de valor, sua decisão é totalmente coerente com seu percurso.

E o que dizer da jovem Jessa (vivida por Jemima Kirke) e seu estranhamento com aquilo que chamamos emprego? Jessa é como tantas da idade dela. As meninas que têm hoje entre 20 e 30, as superqualificadas Y, não se impressionam com as promessas de um sucesso corporativo distante nem se dispõem ao sacrifício necessário para conquistá-lo. Não misturam a persona profissional e a pessoal e querem é voltar cedo para casa e “ter vida”.

Podem parecer deslocadas e mimadas do ponto de vista do mundo empresarial de hoje, em que a geração anterior está no comando. Mas serão elas que darão as cartas e os pontos de vista no futuro. Seu desencanto é o que colheram dos exemplos atuais e do passado recente, com suas mães. Não dá para dizer que Jessa não seja totalmente coerente com esse percurso.

Para saber mais sobre o assunto, confira os resultados do estudo Conte com Elas.

Helen que era mulher de verdade

Publicado em 16.08.12 | por

Foto: Reprodução

 

Fun Fearless Female (em uma tradução livre, “Mulher divertida e destemida”), o slogan da revista americana COSMOPOLITAN (“mãe” da Revista NOVA) define com precisão a sua fundadora, Helen Gurley Brown, que faleceu na última terça-feira (14/8) aos 90 anos em Nova York. Na verdade, Helen era bem mais que isso. Uma mulher à frente de seu tempo. Ousada e inteligente, foi responsável por um divisor de águas não só no mundo do jornalismo, mas também na sociedade moderna. Feminista na prática, mudou a vida de milhares leitoras no mundo todo ao discutir abertamente sobre os mais distintos dilemas da mulher contemporânea, que buscavam identidade, autoconfiança, liberdade.

Sua carreira começou respondendo dúvidas sobre saúde, carreira, relacionamentos e sexo para um pequeno jornal. As questões tomavam quase todo seu tempo livre, e Helen seguiu o conselho do marido e decidiu transformar aquela seção em livro. E assim nasceu o best-seller Sex and the Single Girl (Sexo e a Garota Solteira, sem tradução no Brasil), que virou, em 1964, um filme estrelado por Natalie Wood, Lauren Bacall e Tony Curtis (que aqui no Brasil recebeu o estranho nome de Médica, Bonita e Solteira).

O livro também serviu de inspiração para a criação da revista COSMOPOLITAN, em que Helen foi editora-chefe de 1965 a 1997. Graças ao seu trabalho, a publicação se tornou um fenômeno mundial, que vende cerca de 3 milhões de exemplares por mês só nos Estados Unidos. Hoje, a rede de revistas está em 65 países e tem um número estimado de 100 milhões de leitoras.

Helen Brown deixou inúmeras lições – que nós, mulheres de NOVA, adotamos com orgulho. Mas a principal delas. “Sim. Você pode. Tudo!”

 

E o século 21?

Publicado em 13.12.11 | por

O Vale do Silício é uma espécie de Meca da pós-modernidade. Ali, como disse o músico Bono para  Walter Isaacson,  autor da biografia de Steve Jobs, “a contra-cultura imersa em rock, drogas e rebeliões da Bay Area da Califórnia criou a indústria do computador pessoal e inventou o século 20. ‘Eram hippies maconheiros, que calçavam sandálias e viam as coisas de forma diferente”.  A Costa Oeste inventou o século 20,  uniu o pensamento lisérgico à tecnologia, levou o “computer Power to the people.  Bom, depois de enxergar e fazer tudo diferente, uma das indústrias mais poderosas do mundo entra no século 21 com a menor taxa de mulheres em cargos executivos dos EUA, como apontou o recente Estudo de Líderes Empresariais, realizado pela Universidade da Califórnia. Segundo a reportagem do New York Times (publicada no Estadão deste domingo) mais de uma dezena de companhias de tecnologia aparecem na lista do estudo sem nenhuma mulher diretora (Adobe System, Demand Media, LeapFrog, Nvidia e National Semiconductor). A pesquisa também revela os cinco executivos mais bem pagos das empresas do Vale e entre as que não tem nenhuma mulher nessa categoria aparecem Electronic Arts,Qualcomm , Tesla Motors e… ai, até a Apple. O retrato pode ser claro e desapontador (afinal estamos falando de modernidade, quebra de paradigma, inventores do século 20, etc) mas não é muito diferente, em termos de equilíbrio de gênero nos postos de liderança , da maioria das grandes empresas do mundo. Mulheres são apenas 3% dos 500 CEOs da Fortune. Uma reportagem especial da revista The Economist (edição de 26 de novembro/2011) mostra que as mulheres fizeram enormes progressos nos postos de trabalho mas ainda ganham menos e tem muitíssimos menos top cargos do que os homens. Não era o previsto em 1980, quando as mulheres passaram a se formar nas universidades na mesma proporção que os homens. Muito menos do que se imaginava em 1990, quando as mulheres graduadas superaram os homens, tornaram-se financeiramente independentes e ganharam o controle sobre suas vidas. Em 2011, atesta a The Economist, a sensação é de estagnação e frustração. Há um divisor nesse cenário que passa pela questão da maternidade, sem dúvida.  Mas, principalmente pela falta de motivação feminina para prosseguir nas corporações de modelo mental masculina. A pergunta/provocação que fica: quando as mulheres vão inventar o século 21?




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