À espera de Leila

Publicado em 24.06.12 | por
NELSON DI RAGO

Foto: Nelson Di Rago

Este ano faz 40 anos que Leila Diniz morreu. Achei que não podia deixar em branco e fiz um registro no MODASPOT na data (14 de junho). Leila sempre me intrigou. Afinal, quem foi essa mulher que chocou o país ao expor a barriga de grávida metida num biquíni e ao soltar o verbo (e todos os palavrões, que usava como vírgulas) falando abertamente de sexo numa época em que tudo era tabu?

Ao mesmo tempo, olho suas fotos e vejo nelas uma garota singela, de camisa xadrez, calça cigarrete e sorriso quase ingênuo. Quase. Nada denuncia a tal carapuça de feminista que quiseram lhe impingir. Tinha, sim, uma mulher livre e ousada, que fugiu de casa ainda garota, casou e descasou, tirou a roupa em público e morreu vítima de uma esquina do destino – com saudades da filha, que tinha deixado no Rio, adiantou o voo na volta de uma viagem à Austrália e o avião caiu.

Joaquim Ferreira dos Santos, que escreveu sua biografia, Leila Diniz – Uma Revolução na Praia, diz que não havia nada de feminista raivosa em Leila. Ela não via os homens como inimigos e o que interpretam como militância era, na verdade, Leila em estado puro. O que me faz pensar que estamos completamente carentes de Leilas.

A geração que viveu os anos 1960 queimou sutiãs, botou a boca no mundo e mudou tudo. A dos anos 2000 caiu nas mídias sociais e se engajou na luta pelo meio ambiente. A que ficou entre as duas, nos exagerados 1980, esteve ocupada demais cumprindo jornada dupla, usando blazers com ombreiras e competindo com os homens. Leila contribuiu sendo simplesmente Leila. E seu espírito, que até hoje impressiona, ficou lá atrás, no passado. Talvez por isso ainda pareça tão atual. Ninguém mais cutuca, critica, provoca, ousa. Tudo ficou muito chato, muito óbvio, muito previsível. E sem espaço (e muito menos tempo) para nada. Será que esse mundo tão politicamente correto não precisa de umas alfinetadas como as que Leila tão bem soube dar 40 anos atrás?

Desde que ela se foi que outro nome surgiu que chacoalhou o que as mulheres pensam no Brasil? Que nos fez avaliar quem somos e para onde vamos? Haverá uma Leila versão 2020? Será que ela já está por aí, só esperando uma brecha para nos dizer algumas verdades? Tomara! Afinal, por aqui tudo está ficando careta demais, diria Leila.

Qual é a parada?

Publicado em 26.05.11 | por

Slutwalk, ou em português claro, Marcha das Vadias, é um movimento feminino que começou no Canadá em reação a uma infeliz advertência policial a jovens universitárias. O discurso era mais ou menos assim: as mulheres que se vestem como “vadias”  nas ruas correm mais riscos de serem assediadas, estupradas. A reação das mulheres, ofendidas pelo tom moralista e machista do alerta, foi sair em protesto com faixas pró “slutdressing”e vestidas com seu código provocativo. A mobilização começou no Canadá, passou pelos EUA e as manifestantes prometem marchar mundo afora pelo direito de se vestir como bem entendem. Nem todas as vozes femininas e feministas, no entanto, aderiram à causa. A polêmica pensadora norte-americana Camille Paglia, estudiosa de  Artes e Humanidades, falou sobre o assunto em recente palestra realizada na Editora Abril, em São Paulo. Para Paglia, não se trata de combater o moralismo implícito na advertência policial. As mulheres, disse, podem sim se vestir como quiserem sem serem julgadas mas devem, a elas próprias, a consciência da sua vulnerabilidade e responsabilidade sobre sua integridade física. Não é o caso, argumentou, de agir com o que classificou de “arrogância e presunção das jovens de classe média urbana” para defender sua exposição a riscos desnecessários . “É uma atitude estúpida”, concluiu.




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